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quinta-feira, 31 de março de 2022

A sombra da serra ( conto ou realidade)

Contos que ouvi quando criança

A sombra da Serra

Pelo relato da mãe de uma "vitima" que ao pé da Serra chegando à cidade de Bela Vista, Serra da estrada de terra que liga Oscar Bressane, bem embaixo na pedreira. O Senhor Lauro, novo ainda aos seus dezessete anos, vinha de cavalo de uma festa, lá por volta das onze da noite, bem no começo da serra, o cavalo empacou, não saia mais do lugar. Foi aí que Lauro e o Zé, desceram do cavalo, resolveu puxar o bicho até o fim da Serra, porque faltava menos de um kilometro para chegar a sua casa.

Subiu a Serra, segurando o cabresto do bicho, e quando chegou lá no alto, já cansado.  Resolveu montar no cavalo, e quando olhou no lombo do cavalo, lá estava uma grande sombra preta, que parecia uma fumaça, com dois olhos vermelhos arregalados.

Ele saiu correndo, correu sem olhar para trás, chegou sem fôlego em casa, não gritava, não falava, só olhava com olhos regalados para mim, (neste caso Dona Angelina a mãe), e tremia muito, até pensei que tinha sido roubado, ou que alguém queria matar ele, fiquei apavorada.

Depois de tomar água, mais calmo ele contou o que tinha acontecido. Então no outro dia voltarão lá, e o cavalo tava com a corda amarada numa arvore, com a crina e o rabo todo cheio de trancinha.

Nunca mais eles sairam sozinhos pela noite de cavalo, a historia é verdade, porque não foi só eles que viram mais gente viu, e passou o medo, mais ninguém gosta de falar, com medo de acharem que estão loucos ou inventaram a historia.  

Nilceia Gazzola

Fica aqui um cordel desta história.

No Oeste do meu São Paulo,
Perto do sol se deitar,
Onde o Cerrado valente
E a Mata Atlântica vão se achar,
Fica a rica Echaporã,
Cheia de causos pra contar.

Terra de chão avermelhado,
E as vezes amarelado,
De beleza sem igual,
Mas no fundo do seu mato,
Onde a lua abre o clarão,
Espreita um grande mistério
Que arrepia o coração.

Pela voz de Dona Angelina
A verdade vai sair:
O seu filho, o jovem Lauro,
Festa boa foi curtir,
Na volta pra Bela Vista
O mistério fez surgir.

Eram onze da noite escura,
Vinha Lauro no arreio,
Ao seu lado o amigo Zé,
Numa estrada de receio,
Lá no pé da tal serra,
Perto da pedreira no meio.

Essa estrada de poeira
Que a Bressane vai ligar,
O cavalo de repente
Trancou as pernas no lugar,
Empacou na terra fria,
Não queria mais andar.

Sentindo o bicho pesado,
Lauro resolveu descer,
Falta menos de um quilo
Pra casa eles se acolher,
Pelo cabresto puxaram
Pra subida vencer.

Subiram a serra sem pressa,
No suor da caminhada,
Ao chegar lá no topo,
Da poeirada cansada,
Lauro olhou para o lombo
Na lua que era apagada.

Gelo frio na espinha!
Viura que metia medo!
Lá no lombo do cavalo,
Gritou alto o tal segredo:
Uma sombra feita fumaça,
Mais escura que o credo!

Com dois olhos de brasa viva,
Vermelhos, arregalados,
Sem saber se era um demônio
Ou os mortos malvados,
Os dois jovens correram
Pelos matos espantados.

O cavalo ficou pra trás,
Lauro correu feito o vento,
Chegou em casa sem ar,
Num terrível tormento,
Pra mãe, Dona Angelina,
Sem dar um só depoimento.

A língua não articulava,
Tremendo de dar arrepio,
A mãe pensou em assalto,
Em faca de metal frio,
Até que o menino calmo
Trouxe a verdade do rio.

Bebeu água da moringa,
Contou tudo o que se deu,
Da sombra que tinha olhos,
Do pavor que lhe colheu,
Da assombração da serra
Que do nada apareceu.

No outro dia bem cedo,
Voltaram naquele lugar,
O cavalo estava lá,
Preso pra espantar:
Com a corda bem amarrada
Numa árvore a balançar!

Mas o mistério maior
Fez a mente balançar:
A crina e o rabo do bicho
Feitos pra assombrar,
Tinha um monte de trancinha
Que ninguém soube explicar!

Pois ali em Echaporã,
Muita gente já avistou,
Dizem que é o Saci,
Ou coisa que o cão criou,
Ninguém gosta de falar
Do terror que ali passou.

Têm medo de passar por doido,
De dizer que é invenção,
Mas na estrada de Bressane,
Na pedreira do sertão,
Ninguém mais anda sozinho
Com a noite no pé do chão!

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